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ROUBO, PORRADA E POLÍCIA NUM SHOW DO LOOP EM UMA LOJA DE DISCOS 

Três dias antes de tocar na edição de 1990 do Reading Festival, Robert Hampson e seus comparsas levaram destruição à loja de discos Our Price, no centro de Reading

Robert Hampson, líder da banda inglesa Loop, disse em uma entrevista à Melody Maker no início dos anos 90 que sonhava em trancar o público numa sala e submetê-lo à maior descarga de som e volume possível, e observar qual seria a reação. Algo semelhante àquela ideia de botar caixas de som em um galinheiro e tocar rock pesado no último volume – há quem diga que o resultado da experiência são ovos que não servirão pra nada.  

Até onde se sabe, Hampson nunca conseguiu realizar o sonho de torturar a plateia - ou abençoa-la com volume e psicodelia -, mas em 23 de agosto de 1990, três dias antes do show que o Loop fez na edição daquele ano do Reading Festival, ele e a sua banda fizeram uma apresentação surpresa na Our Price, uma loja de discos no centro da cidade de Reading. O resultado? Brigas, queda de energia, discos roubados e a polícia local cortando o barato da turma ao ameaçar prender o gerente da loja se a banda não parasse de tocar. Uma boa alma botou no YouTube o show do Reading (não o da loja) na íntegra, filmado da plateia com duas câmeras.

“Fãs irados do Reading Festival ameaçaram clientes e brigaram nas ruas do centro ontem à noite”, informou o jornal Reading Post na edição do dia seguinte, primeiro dia do Reading Festival, talvez o principal de verão europeu. “A briga estourou na rua enquanto cerca de 200 fãs assistiam ao show da banda de rock pesado e psicodélico Loop do lado de fora da Our Price, na Broad Street, às 19h15”, escreveu Paul Pickett, esquecendo que o Loop tocou mesmo do lado de dentro da loja.

A história foi relembrada em um grupo de fãs da banda no Facebook no último dia 22 de fevereiro. Melhor: por gente que trabalhou na loja. Tracey Hearn, membro do grupo, era funcionária da Our Price e registrou em fotos o que foi possível captar. Segundo escreveu, enquanto a banda montava o equipamento lá dentro, o público, ainda do lado de fora, sacudia as portas de vidro da loja.

ROUBANDO DISCOS

Tracey conta que toda vez que a banda começava a tocar na passagem de som, derrubava a energia elétrica do estabelecimento. Sem palco, a banda tocou no chão, espremida pelo público, que lotou o lugar. “Eu estava lá”, contou  outro integrante do grupo, que assina Karl Mak. “Tiveram que fechar a loja porque as pessoas estavam roubando todo o estoque. Obviamente, não eram fãs do Loop, devo acrescentar. Fiquei puto porque eles tiveram que parar de tocar”. Os seguidores do Loop eram chamados de “soundheads”.

 “Eu morava em Reading nessa época e me lembro de que foi caótico”, comentou Stephen Jenner, outro integrante do grupo. “Tentei ir até lá e não consegui. A multidão estava no meio da rua bloqueando o caminho dos ônibus. Bons tempos!”, celebrou.

“O inspetor Richard Buckingham disse que o problema começou quando a Our Price ficou lotada de fãs que queriam ouvir música ao vivo”, prosseguiu o Reading Post. A loja, que não era grande, encheu rápido. “As pessoas que estavam do lado de fora ficaram agitadas porque não conseguiram entrar e começaram a empurrar”, informou o inspetor. Segundo o jornal, a polícia então pediu à loja que interrompesse o show porque não havia mais como garantir a segurança do público. Ninguém foi preso.

“Tudo acabou muito rápido, já que a polícia ameaçou prender nosso gerente se a banda não parasse de tocar”, escreveu Tracey no post. As fotos são dela, e por elas dá quase pra sentir o calor suarento que fazia dentro da loja, e ouvir o estrondo hipnótico em volume insano do Loop, que levou caos ao lugar.

“A polícia fechou a loja e botou todo mundo pra fora. Foi divertido enquanto durou”, registrou Tracey. De certo modo, Hampson realizou o sonho de descarregar toneladas de decibéis sobre o público trancado em um espaço confinado.

De acordo com a ex-funcionária, a Our Price costumava botar bandas pra tocar; Primal Scream e Ride marcaram presença em apresentações na loja.

A banda ainda parou pra autógrafos e alguns goles de cerveja na calçada, enquanto empacotavam tudo e botavam dentro da van. Tracey foi flagrada ganhando um autógrafo de Hampson.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Enquanto o pau quebrava no centro, a polícia e a organização do Reading se preocupavam também com uma carga de ingressos falsos para o festival, vendidos por até 50 libras para os três dias – os verdadeiros custavam 36 libras.  Os falsificados chegaram às autoridades locais, explica a reportagem, depois de uma megaoperação na cidade em busca de drogas, hooligans e cambistas.

De Croydon, região sul de Londres, o Loop existiu de 1986 a 1991, sob a liderança constante de Hampson e formação flutuante. Nesse período, gravou três álbuns – Heaven’s End, 1987; Fade Out, 1989; e A Gilded Eternity, de 1990, mais compilações e singles. Hampson botou a banda na estrada de novo entre 2013 e 2015 – ele tocou e foi curador do All Tomorrow’s Parties, na Inglaterra. A banda foi ainda headliner do Roadburn Festival, na Holanda, em abril de 2014. No ano seguinte, lançou o ep Array 1, o primeiro de uma série de três que acabou não sendo concluída. No ano passado em seu site, soundheads.org, prometeu um disco novo do Loop, ainda não lançado. Em abril de 2020, lançou Ballardism, três peças-solo para download grátis, e lançou ainda Sevens, reedição em vinil e tiragem limitada de três singles da banda – “Spinning”, “Collision” e “Arc-Lite” – pelo selo Reactor.

Os riffs mântricos e pesados, o abuso das distorções, as referências explícitas à psicodelia de garagem dos anos 60 e aos Stooges fizeram com que o Loop fosse acusado pelos “gêmeos” Peter ‘Sonic Boom’ Kember e Jason Pierce, do Spacemen 3, de plágio. Briga típica da época, quando as bandas adoravam provocar umas às outras nas páginas dos semanários ingleses de música. Bons tempos.