A.R KANE: "JESUS AND MARY CHAIN NEGRO É O RACISMO NA MÍDIA"

Entrevista publicada originalmente no blog Vox em 24 de setembro de 2015

Negros tocando guitarras. O rock está repleto deles, o que é ótimo. Veio deles, por sinal, com os instrumentos elétricos nas mãos e botando adolescentes pra sacudir traseiros lá nos anos 50. O que vem depois é história, mas parece que a gente ainda olha diferente quando eles não estão no hip hop, no jazz, no R&B, no samba, ou quando decidem fazer ferver amplificadores e ouvidos despreparados. Dos pré-punks do Death à força da natureza chamada Bad Brains, passando por Fishbone, Living Colour, The Veldt, TV on The Radio, Young Fathers e outros milhares, o preconceito disfarçado borra a visão de muita gente e faz parecer que tem alguma coisa fora do lugar. Como se não tivesse sido todo esse lance de música pop, rock etc inventado por eles. Confira o que faz a turma do Afropunk e qualquer visão equivocada sobre isso cai por terra em segundos.

Rudy Tambala e Alex Ayuli criaram o A.R Kane em 1986. Com a cabeça e os ouvidos em Miles Davis e Cocteau Twins, estabeleceram uma maneira própria de fazer música pop —o dream pop — e foram chamados de “Jesus and Mary Chain negro”. “Isso nos divertiu, ficamos um pouco lisonjeados”, conta Rudy, em entrevista por email, e emenda uma ponderação crítica valiosa: “Isso é obviamente o racismo institucionalizado na mídia”.

A relevância da dupla pode ser constatada no bando de gente que influenciou — bote na lista Slowdive, Ride, Chapterhouse, Beach House, XX e mais alguns da turma chegada nuns lances suaves misturados a barulho de guitarra, samples e loopings — e pelo trabalho M/A/R/R/S, combo de artistas ligados ao lado de baixo do pp no fim dos 80, consagrado pelo single “Pump Up The Volume”, de 1987. A música fez nascer uma geração de artistas da dance music. Fernando Lopes vira do avesso essa história no Floga-se.

Rudy juntou o filho, Louis, e mais alguns outros músicos entre jovens e veteranos e botou de novo a banda na estrada. Sem Alex, que deu seu aval pro retorno do A.R. Kane. A banda segue em algumas apresentações pela Inglaterra, sem perspectiva de uma excursão maior ou disco novo.

Do que lançou desde 1986, impossível ficar indiferente à força do primeiro ep, Lollita, de 1987, produzido por Robin Guthrie e lançado pela 4AD (casa de artistas incríveis), ou ao single "When You’re Sad", do ano anterior, pela One Little Indian69, o primeiro álbum, junta as primeiras experimentações dos cabras a caminhos distintos que agregariam a sua música até o encerramento das atividades, em 1994. Antes de dar um basta, a banda lançou I, em 1989 pela Rough Trade, e New Clean Child, em 1993 pela Luaka Bop, de David Byrne. Discos menos inspirados, perdidos num redemoinho de climas e dance pop chique, de retoques à Brian Ferry.

69 (Rough Trade), porém, evidencia a potência criativa de Rudy e Alex. Uma colcha de retalhos bem sacada de influências, que vão do jazz ao dreampop; do dub a alguma coisa próxima ao trip hop. Do barulho envolvido por microfonias ao R&B. “Crazy Love”, que abre o disco, é o Mercury Rev fase Yerself is Steam tentando se aproximar de Liz Fraser. “Sulliday” é uma guerra de amplificadores brigando pra ver quem queima antes enquanto Alex viaja em uma declaração de amor banhada em aditivos químicos: “every time I love you I see angels crossing over, I see angels passing by”.

Tem guitarras raivosas, mas há espaço também pra um certo suingue, uma certa pilantragem etérea, feita a partir das somas de referências emprestadas da música negra e do dreampop inglês do fim dos 80, ainda que Rudy afirma não serem intencionais. Ou como se o Cocteau Twins desse férias a Liz Fraser e assumisse a vaga de banda de apoio da Sade.

Em 2000, a 3rd Stone relançou New Clear Child. Em 2004, a One Little Indian empacotou de novo os dois primeiros discos do A.R Kane, mais a coletânea de eps e singles A Complete Singles Colection em 2012

Como foi seu primeiro contato com a música?

Rudy Tambala — Rádio e discos enquanto era um bebê. Minha mãe adorava as valsas de Strauss. Me lembro de ouvir Chris Montez cantando “The More I See You…”

Quem eram seus heróis quando você percebeu que realmente gostava de música?

RT — Sempre gostei de música. Não tenho heróis.

Quando você descobriu que queria estar em uma banda? Quem eram os artistas e grupos que fizeram você pegar uma guitarra e compor/tocar suas próprias músicas?

RT — Cocteau Twins, Velvet Underground, Jimi Hendrix. Esses foram os artistas de “guitarra flexionada” que eu mais admirava no começo.

A imprensa britânica classificou o A.R Kane como o Jesus and Mary Chain negro. Como vocês reagiram quando leram essa classificação? Esse tipo de comparação incomodou vocês quando vocês estavam iniciando e tentando se estabelecer como uma banda?

RT — Isso nos divertiu, ficamos um pouco lisonjeados. Isso é obviamente o racismo institucionalizado na mídia, mas que diabos, como Warhol disse, “apenas meça as colunas em polegadas”. (A frase completa é “não preste atenção ao que escrevem sobre você. Apenas meça [a coluna] em polegadas”.)

Além disso, o crítico Simon Reynolds retratou os primeiros trabalhos do A.R Kane como “influenciado por Miles Davis, Cocteau Twins, Can e dub, [em que] melodias frágeis e assombradas derivam de uma névoa alucinatória de microfonia fluorescente e efeitos apodrecidos de guitarra”. Você concorda com essa impressão? Vocês estavam mesmo tentando somar influências tão diferentes e criar uma nova abordagem para a música pop?

RT — Em primeiro lugar, a impressão do Simon Reynolds é exatamente isso, a impressão “dele”. Não podemos discordar disso. Miles Davis e Cocteau Twins, sim. Can, não. Em segundo lugar, não estávamos tentando misturar, não tentávamos coisa alguma. [Estávamos] Apenas tocando… como garotos… nos divertindo, fazendo sons, música. Estávamos espantados com o que estava acontecendo,não tentando [alguma coisa].

Pode citar alguns grupos britânicos e americanos que você acredita serem como parceiros do A.R Kane em ideias e na visão do que é música pop?

RT — Não.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Apollo Heights/The Veldt, banda americana formada por negros, lançou um disco maravilhoso há alguns anos chamado White Music for Black People. Por causa do talento imenso e da criatividade dos caras, conseguiram mixar Cocteau Twins com Sam Cooke e criar uma mistura maravilhosa de estilos musicais diferentes. Vocês pensavam assim durante os anos 80, quando começaram a tocar como A.R Kane?

RT — Esses caras são amigos queridos, mas fazem um trabalho próprio, não é a mesma coisa do que a gente faz. Pelo fato de serem caras negros fazendo noise, somos vistos de forma limitada — o que é um absurdo, o racismo casual e a visão míope continuam. Nunca pensamos em misturar [influências], nunca pensamos sobre cor. Fazemos música, cacete!

Por causa dos estereótipos e de uma visão superficial de música e da cultura, há quem olhe pra bandas como vocês, o Apollo Heights/The Veldt, TV on The Radio, esperando apenas por referências da black music e do R&B. Vocês algumas vez enfrentaram algum tipo de problema por causa desse tipo de visão limitada?

RT — Eu realmente me importo? Vivemos na era do mashup — nada é mais homogêneo. Isso vai aumentar com mais migrações globais de pessoas e as culturas delas. Negros, brancos, quem realmente se importa? A primeira coisa que ouvi foi Strauss. Marvin Gaye veio depois. Hendrix em terceiro, Genesis em quarto lugar, etc, etc..

Fale sobre o que os inspirou a voltar com a banda depois de todo esse tempo desde que vocês pararam. O que moveu vocês a retomar a rotina como uma banda, shows, estúdios, compor, gravar…?

RT — A gente era ocasionalmente chamado pra tocar, pra gravar. Dissemos não. Este ano, nos sentimos prontos. Eu disse sim, Alex disse não. Então formei uma banda sem o Alex. Ele foi tranquilo quanto a isso. Voltar a compor veio naturalmente depois que comecei a tocar de novo, então agora temos músicas novas. Nenhum plano concreto pra gravar ainda. Talvez mais shows primeiro.

Quem são os membros atuais? Como você encontrou os músicos pra trazer de volta o poder e a energia do A.R Kane tanto pros fãs antigos quanto pra um público novo? Você acredita ter encontrado os músicos certos pra essa missão?

RT — Tenho a Maggie (voz) e o Colin (baixo) da formação original. Então veio o John (bateria) e o Jimmy (guitarra-solo) que são grandes fãs do A.R Kane e músicos profissionais. Eles estão afinados e fazem um som perfeito. Além disso tenho o Andy (guitarra, voz) e o Louis, meu filho (loops e batidas) que são ambos jovens estudantes e trazem um frescor ao som que conecta com um público novo. Eu toco guitarra e faço os vocais. Nosso som novo é grande ao vivo — somos em sete, muito maior do que o som que fazíamos antes, mais fiel às gravações. Uma energia diferente.

Como era a cena londrina quando vocês dois começaram a banda? Quais eram os desafios mais difíceis pra uma banda independente durante os anos 80?

RT — A cena indie londrina era uma novidade pra nós. Não sabíamos nada sobre indie music, éramos mais da cena dos clubes underground, festas em armazém etc.. Não sabíamos nada até que começamos a tocar ao vivo e fomos expostos ao mundo indie. Não era nada glamoroso. Era um pouco decadente. Tivemos sorte de fazer amigos como o Cocteau Twins e o Sugar Cubes etc, e ir a clubes legais e festas. Assinar com a Rough Trade abriu de fato as coisas pra nós, então pudemos ver um monte de bandas e aprender muito como tudo isso funciona. Era uma cena bastante incestuosa. Tivemos muita sorte e foi fácil pra nós no início — a maioria das bandas realmente se esforçou — elas ainda se esforçam. Acho que éramos bastante blasé naquele tempo. Vejo isso quando olho pra trás. Tivemos muita sorte.

 

 

 

Como era o relacionamento com a Rough Trade? Vocês sentiam suporte do Geoff Travis? Como foi o período em que estiveram trabalhando com o selo?

RT — A Rough Trade era maravilhosa e o Geoff Travis dava um baita apoio. Se [devo dizer] alguma coisa, ele deveria ter sido mais crítico e mais duro com a gente. Adoramos o tempo com aqueles caras. Foi horrível quando o selo foi à falência. Afetou toda a cena independente britânica. Tivemos de nos mudar, e então assinamos com a Luaka Bop, do David Byrne, em Nova York, que também era muito bacana.

Algumas bandas dos anos 90, as da cena shoegaze, como My Bloody Valentine, Slowdive, Ride, Loop, estão de volta. Além disso, o documentário Upside Down, a Creation Records Story fez um barulho enorme entre fãs do gênero que eram adolescentes nos anos 90. Na sua opinião, o que havia de tão especial nessa geração?

RT — Não tenho ideia. Não éramos parte disso, nunca fomos convidados pra esse tipo de festa. Não tenho nem certeza se essa cena realmente existiu. Não acho que fãs de shoegaze gostam do A.R Kane. Posso estar errado.

É normal ler palavras como dream pop e shoegaze em resenhas sobre o A.R Kane. Mas sua música tem elementos diferentes além de guitarras barulhentas e uma atmosfera etérea. Como vocês criaram o som da banda e como você o descreve?

RT — A gente usava tudo o que tivesse em mãos pra fazer música. Em 1986 tivemos acesso a guitarras, distorcedores, efeitos como delays e reverb, os primeiros samplers, sequenciadores e teclados. Usávamos o que a gente podia, sempre experimentando, tentando encontrar sons que casassem com a música, músicas que casassem com os sons, que captassem o sentimento, que ecoasse nossos pensamentos e visões e experiências, seja acordado ou em sonhos. Descrevíamos nossa música como dream pop. Ainda fazemos isso.

Além da boa música, uma das coisas mais legais do retorno de bandas como vocês é ver o comportamento de músicos que começaram a tocar na adolescência e retomaram o trabalho da banda já na maturidade. E eu acredito que isso mude sua perspectiva quando você pensa que você é um pai de família, marido e pai, por exemplo, com um estilo de vida diferente do que você tinha no início da carreira. Você sente isso? Como manter a energia pra voltar à estrada e encarar novamente alguns problemas típicos do meio do rock quando sua vida tem necessidades diferentes?

RT — Você está 100% certo. É estranho e ainda… eu sinto que as pessoas têm personalidades diferentes… completamente separadas. Minha personalidade musical realmente enlouqueceu quando parei de fazer música. Ocasionamente fico com muita raiva, sabe, “que merda, quem é essa mulher chamada ‘esposa’, cujos filhos são esses aí?” Mas logo passa. Quando eu comecei de novo este ano a pegar a estrada, isso voltou à vida, à mesma loucura que sempre esteve lá. Mas, como você sugere, com alguma perspectiva. Consigo compartilhar e orientar mais. É muito legal, na verdade. Eu realmente me conecto com os membros mais jovens — foi um novo aprendizado pra mim também. Sou bastante grato.

O que você acha da internet como uma ferramenta de distribuição da sua música? Como você vê o futuro da indústria da música em um período em que as gravadoras não são mais essenciais pra fazer discos e divulgá-los?

RT — Os dias de milhares de músicos ricos já se foram; a era industrial acabou. Se baseava em controle e abastecimento limitado — a era digital destruiu isso. Não falo de artistas pop globais, que pra mim é um mundo musical diferente — é mais show business. Falo do estado da arte da música. Gostaria de pensar que faço parte disso. Fazendo algo novo de cada vez. Estamos em uma transição para uma nova era da música. Não estamos lá ainda e ninguém sabe como isso vai evoluir. Acredito que o iTunes e o Spotify são um passo na direção certa, mas ainda parece errado pra mim. A música ao vivo é grande agora. E isso é ótimo. As gravadoras são apenas contabilistas e principalmente marqueteiros ruins. Raramente fazem algo que preste. Neste momento não acredito que consiga um contrato [com uma gravadora].
 

Conte sobre a tour atual. Você incluiu músicas novas no setlist?

RT — Não é exatamente uma tour, são apenas algumas datas em festivais pra medir a temperatura. Podemos pensar em uma tour pequena no ano que vem, se encontrarmos alguma forma de suporte, já que isso é bastante caro. Temos algumas novas versões de músicas baseadas em mais groove. Meu filho Louis tem criado umas batidas que trazem algo mais atual, pra uma sensação contemporânea. Exemplo: “Love From Outer Space” agora tem duas versões, um imenso wall of sound com cada instrumento no último volume e sem bateria, e uma nova versão 2015, house, que faz você querer sacudir seu traseiro.
 

Algum plano pra um disco novo?

RT — Nãããããão. Ainda não, de qualquer modo. Talvez se a gente conseguir algum suporte, a gente faça isso.
 

Quais bandas novas você está ouvindo atualmente?

RT — Não tenho escutado bandas novas. Eu realmente gosto do XX, Animal Collective, Alt J.. Ouço bits e pedaços, mas nada no ano passado realmente me tocou. A sujeira da cena britânica é louca, muita energia perdida lá, mas nenhuma banda particular se destaca. Ainda estou esperando ouvir algo que vai estourar a minha cabeça assim como [fizeram] Milles Davis, Cocteau Twins etc..